Obras que marcaram o século XIX, parte 6: a literatura realista em David Copperfield

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David Copperfield, de Dickens

Charles Dickens foi um dos maiores escritores ingleses do século XIX. Nasceu em 1812 e passou a maior parte da infância na cidade de Chatham, onde começou a freqüentar a escola e teve contato com os livros e com o teatro. Seu pai, John Dickens, era um modesto funcionário público, mas tinha pretensões de viver acima de suas possibilidades, o que resultava frequentemente em muitas contas por pagar e embaraços para a família. Quando Charles tinha onze anos, a família mudou-se para um bairro pobre de Londres, em decorrência dos desastres financeiros do pai. Instalaram-se em um pequeno sótão, destituído pouco a pouco de todos os móveis e pertences familiares, tiveram de ser penhorados. Em 1823, John Dickens foi preso por dívidas. O pequeno Charles foi obrigado a trabalhar, a convite de um parente de sua mãe, que dirigia uma fábrica de graxa. Seu serviço consistia em colar rótulos nos recipientes, no porão de uma velha casa, suja e infestada de ratos, às margens do rio Tâmisa. Desolado por ter abandonado seus estudos, Charles passou a ter ataques nervosos e a sentir-se profundamente envergonhado de sua situação. Embora visitasse o pai na prisão todos os dias, antes e após o trabalho, sempre escondeu esse fato dos colegas. Depois de três meses, John Dickens saiu da prisão. Porém, ainda manteve o filho trabalhando por várias semanas, antes de mandá-lo de novo à escola. Charles não compreendia a atitude de seu pai e não se conformava por estar perdendo a oportunidade de educar-se adequadamente. Essa experiência marcou-o profunda e amargamente, a tal ponto que fez questão de escondê-la até mesmo de seus filhos e chegou a confessar, mais tarde, que a lembrança dela o perseguiu e atormentou por toda a vida.

Aos vintes e um anos, Dickens publicou suas primeiras crônicas e passou a trabalhar como repórter de jornal. Em 1837 publicou seu primeiro romance, Pickwick papers (traduzido como As aventuras de Pickwick). Desde então, foi-se tornando cada vez mais um fenômeno de popularidade, chegando a vender cem mil exemplares de seu quarto romance. A loja de antigüidades (The old curiosity shop, 1840-41). Entre as principais obras do escritor encontram-se ainda Oliver Twist (1837-38), Tempos difíceis (Hard times, 1854) e Grandes esperanças (Great expectations, 1860-61). Dickens morreu em 1879, quando escrevia Edwin Drood, deixando o legado de uma obra que é das grandes do século passado e que trouxe para a literatura inglesa a humanidade e a linguagem de uma ampla parcela da sociedade até então negligenciada — a baixa classe médias.

Para Lorenzo, a dramaticidade ou teatralidade são características que se sobressaem neste romance. Há diversos episódios que se estruturam mais como uma cena teatral do que como uma narrativa propriamente dita. E, assim como no teatro, o estilo pode variar do cômico ao melodramático, passando também pelo trágico. Mas é no plano da comédia que se desenvolvem alguns dos melhores momentos do livro.

A autora afirma que esse caráter teatral não é fortuito. Além de Dickens ter sido um grande apreciador de teatro, sobretudo de Shakespeare, havia em sua época um costume muito difundido de se fazerem leituras públicas de textos narrativos, como se fossem leituras dramáticas, isto é, de textos teatrais. E Dickens não desprezou este extraordinário meio de divulgação. Ao contrário, tornou-se ele mesmo um dos mais famosos e disputados leitores de seu tempo, atraindo sempre para suas récitas um público imenso e fiel, que provavelmente não se contentava em apenas ler passivamente os romances do ilustre autor.

Lorenzo explica que Dickens foi convidado em diversas ocasiões pela rainha Vitória para representar no palácio, mas sempre esquivou-se, alegando achar indispensável a presença do público e sugerindo que a rainha fosse a uma de suas apresentações. Em seu último ano de vida, Dickens e a rainha finalmente se conheceram pessoalmente, e quando ela lamentou jamais ter podido ouvir suas leituras, respondeu ele que tal seria impossível, pois havia-se despedido definitivamente do tablado. Charles Dickens, por toda a vida, manteve-se coerente em sua atitude de recusar oportunidades de ser adotado pelo classe dominante.

A crítica social, segundo a autora, é um dos aspectos mais contundentes em David Copperfield. Muito embora, para os leitores de hoje, essas denúncias nem sempre sejam explícitas, elas eram evidentes para os leitores do século XIX. A luta pela justiça, de um modo geral, exemplifica aquele tipo universal de conscientização sobre os problemas sociais. Mas a luta por melhor tratamento às crianças nas escolas, pela reabilitação das prostitutas, contra os longos e ineficientes debates parlamentares, contra o sistema penitenciário e em favor da emigração para a Austrália são exemplos de militância especificamente relacionada às questões sociais e políticas do tempo.

Assim como muito outros romances de Dickens, David Copperfield foi publicado pela primeira vez não sob a forma de livro, mas de fascículos mensais, que iam sendo escritos no ritmo das publicações, em um processo semelhante ao das atuais novelas de televisão. Uma das curiosas consequências desse método de composição é que o autor tinha a possibilidade de alterar suas intenções iniciais conforme a recepção de cada fascículo pelos leitores, podendo incorporar sugestões ou responder a críticas vindas de seu imenso público. Talvez, afirma Lorenzo, se deva a essa permeabilidade entre autor e público a incômoda presença, em seus romances, de alguns elementos sentimentais, de gosto notadamente popular.

Referências

LORENZO, I. de. Apresentação. In: DICKENS, C. David Copperfield. v. 1. São Paulo: Sol, 1997. p. 7-11.

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